PM/Aripuanã
Durante reunião na tarde de ontem, engenheiros que eram mantidos reféns foram liberados
Cinco trabalhadores que ainda eram mantidos reféns por um grupo de indígenas na Usina Hidrelétrica Dardanelos, em Aripuanã, em Mato Grosso, foram libertados na tarde de ontem (26). A informação é do grupo responsável pela obra, a Energética Águas de Pedra.
Em nota, o consórcio diz que, apesar da liberação dos funcionários, a ocupação permanece, “o que impede a continuidade da obra no Rio Aripuanã”.
O comunicado diz que, em reunião com a construtora, a Fundação Nacional do Índio (Funai), a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), as lideranças indígenas anunciaram que vão preparar uma pauta de reivindicações para deixar o local.
Até a manha de ontem, na tentativa de colocar fim à ocupação de índios de oito etnias no canteiro de obras da Usina de Dardanelos, representantes da Casa Civil, da Fundação Nacional do Índio, da Secretaria de Meio Ambiente e da construtora responsável se reuniram. Apesar de não haver acordo quanto a liberação das obras, os reféns (engenheiros que foram ‘trocados’ por 280 funcionários na noite de domingo) foram liberados no final da tarde de ontem.
Os índios devem preparar uma pauta de reivindicações para a desocupação. A argumentação é a de que o empreendimento (mesmo fora da reserva indígena) tem valor histórico. Temem ainda prejuízos econômicos, diminuição do peixe e da qualidade da água quando a usina começar a funcionar.
O protesto teve início no dia 25, na cidade de Aripuanã (1,2 mil km de Cuiabá), e cerca de 250 pessoas foram rendidas. Entretanto, os funcionários foram trocados pelos engenheiros. A ‘troca’ foi mediada pela Polícia Militar do município, informaram a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a própria PM nesta segunda-feira (26).
Apesar do clima de tranquilidade, de acordo com o capitão Sebastião Taques do Espírito Santo, comandante da Companhia da PM de Aripuanã, os índios ameaçaram atear fogo na área se não houver uma negociação condizente com suas exigências até quarta-feira (28). “Mesmo pacíficos, eles disseram que não vão poupar esforços para destruir toda a hidrelétrica se não forem atendidos”, contou o comandante. Os reféns eram mantidos em uma área isolada.
De acordo com a coordenadoria regional da Funai em Juína (740 km da capital, responsável por assistir os ameríndios na região), o problema já se arrasta por quase quatro anos. Os indígenas teriam ficado descontentes com o processo de licenciamento porque este teria incluído indevidamente um cemitério, destruídos pelas obras. Desde então, as etnias exigem ressarcimento.
Os índios exigiam a presença de representantes do Ministério de Minas e Energia, da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, do Ministério Público, da Funai, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e das empresas responsáveis pela hidrelétrica para negociar o valor dessa indenização; entretanto, quem negociava com eles ontem eram representantes da Energética Águas de Pedra, responsável pela construção, da Funai e da Casa Civil do governo do Estado de Mato Grosso, além de agentes da Polícia Federal.
Paulo Rogério Novaes, gerente de Meio Ambiente da Águas da Pedra, afirmou à imprensa nacional que a empresa nunca se negou às suas responsabilidades, mas aguarda parecer da Funai, que ainda estuda o que deve ser feito. A partir daí, será feito um programa de ações para a comunidade. “O empreendimento, dentro da legislação ambiental, está procurando fazer tudo o que é solicitado”, disse.
A empresa trabalha com uma previsão de entrada em funcionamento da hidrelétrica em janeiro do ano que vem.
NOTA
A empresa Energética Águas da Pedra S/A, consórcio responsável pela obra da usina, disse em nota que “manifesta total surpresa” com a invasão. Segundo o texto, a obra não tem impactos direto sobre as comunidades indígenas e não está sendo construída em área indígena ou sobre antigos cemitérios indígenas, o que pode ser comprovado por levantamentos arqueológicos realizados com autorização do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
Publicado em : 27/07/2010 às 08:24